Foi-se o tempo em que o problema deste País era a falta de emprego. Aos quatro ventos, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, grita que o Brasil vai continuar crescendo 5% ao ano e que a perspectiva é de 3 milhões de novos postos de trabalho em 2011, superando os 2,5 milhões de 2010. Mas tem brasileiro para tudo isso? Afinal, Lupi também reconhece que a falta de qualificação de profissionais brasileiros pode estancar o desenvolvimento do País. Mas será que dá para reverter o profundo déficit educacional brasileiro a tempo de se aproveitar as oportunidades
de agora?

Exemplo de quem já amarga o problema é a construção civil. Num ritmo de crescimento bem acima do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro que foi de 7,5%, em 2010, a construção civil leva nas costas boa parte dos bilhões a mais que o Brasil tem lucrado. O setor cresceu 11% no ano passado e, só no Ceará, empregou 16.075 pessoas, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. É o terceiro em geração de vagas, no Estado.

Mas a euforia de 2010 vai ficar por lá mesmo. De acordo com estimativas do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), o avanço da construção civil deve cair para a casa dos 6%, em 2011, devido a “probleminhas” enfrentados pelo setor: falta de tecnologia e de gente qualificada. A pouca qualificação é um problema para 62% das empresas. Entre as grandes construtoras, o número sobe para 80%, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada em 23 de março.

Investir
O Ceará mesmo já tem sentido na pele a falta de qualificação dos seus. Para os grandes empreendimentos do Complexo do Pecém – termelétricas, siderúrgica, eólicas – vieram trabalhadores de fora: do simples soldador ao engenheiro. Tantos que lotaram a localidade do Icaraí, com tanta procura por residência que fez os aluguéis quase dobrarem os valores por lá. E (se Deus quiser) vem uma refinaria por aí. Mas quem vai trabalhar nela? A falta de pessoal qualificado só revela um dolorido e velho calo, conhecido íntimo do brasileiro: a precária estrutura da Educação. E isso não é novidade para ninguém. “Se o mercado pensa que vai resolver problema de mão-de-obra de uma hora para outra, está enganado”, alerta o professor Carlos Manso, coordenador do Laboratório de Estudos da Pobreza do Curso de Pós-Graduação em Economia, da Universidade
Federal do Ceará.

Para o economista e pesquisador, Educação é investimento de médio e longo prazo, ou seja, seriam precisos pelo menos de dez a quinze anos para formar uma geração suficientemente qualificada e competitiva, que correspondesse à demanda de um mercado tal qual o que se tem hoje. Seria preciso agora de uma revolução no ensino público do Estado. Mas num caso, digamos, emergencial, há quem defenda que a qualificação intensiva possa, a curto prazo, amenizar os gargalos.

Fonte:  O POVO Online/OPOVO/Economia 26-03-2011