De acordo com a Apeoc, as disciplinas mais prejudicadas são aquelas que compõemas ciências da natureza

O primeiro semestre do ano letivo terminou. No entanto, para boa parte dos 540 mil alunos na rede pública estadual de ensino do Ceará, nem todo o conteúdo programado pôde ser repassado. carênciaA situação se deve a carência de cinco mil professores, segundo o Sindicato dos Professores e Servidores de Educação da Rede Estadual e Municipal do Ceará (Apeoc) e as áreas mais críticas são Física, Química, Biologia e Matemática.

No Brasil, a realidade não é diferente. Conforme levantamento feito, este ano, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em parceria com o Conselho Nacional de Educação (CNE), há, na rede de ensino público, um déficit de 235 mil professores do quinto ano do Ensino Fundamental.

Para resolver o problema, os estados recorrem aos professores que não prestaram concurso, os chamados temporários. Na rede estadual de ensino do Ceará, segundo a Apeoc o número desses profissionais já chega a 11. 257, o que corresponde a 45% em um total de 24 mil professores na rede. Para agravar ainda mais a situação, 20% desses temporários não têm habilitação em nível superior.

“Na minha escola, a carência de professores é tão grande que dos 22 capítulos do livro de Matemática só foram repassados seis”, desabafa o estudante Alison da Silva Noberto. Conforme ele, que estudou durante dois anos no Liceu do Ceará, a situação é tão extrema que um mesmo professor de Matemática ministra aulas no 1º, 2º e 3º anos do Ensino Médio.

Inconformado e prejudicado com o problema, Noberto decidiu sair da escola e conseguiu uma bolsa de estudos em uma instituição privada. “Precisava estudar e me qualificar para alcançar o sonho de cursar a faculdade de direito. Se eu continuasse estudante lá, não teria a mínima possibilidade”, frisa.

Educadores também se sentem prejudicados, por conta da carga horária. É o que confirma o professor Raimundo Praciano de Castro, responsável pela disciplina de Matemática há 28 anos no Liceu do Ceará. Ele ressalta que são 200 horas aulas semanais dentro de uma sala de aula e o trabalho não acaba por ai. São muitas noites e madrugadas acordado elaborando e corrigindo provas. “A carga horária é estúpida, não sobra tempo para nada e ainda por cima o salário é muito baixo”, diz.

De acordo com ele, a carência de professores se deve a falta de motivação salarial para novos profissionais. Castro afirma que nenhum jovem escolheria ser professor a não ser por amor a profissão. A respeito do conteúdo programado para o ano letivo, diz que é quase impossível que um mesmo professor consiga repassar toda a matéria. “Realizar concurso e construir mais escolas não acaba com o problema, é preciso que haja uma mudança na política da educação do País”, diz.

Análise

Para o professor Anísio Melo, diretor da Apeoc, essa carência se deve a diversos fatores, entre eles está a baixa remuneração, na qual o Ceará está entre os seis piores salários do Brasil.

De acordo com ele, enquanto no Distrito Federal a hora-aula é de R$ 16,13, aqui no Estado, um professor ganha em média R$6,63 por hora. Além disso, são registradas violência nas escolas, carga horária excessiva e doenças de trabalho causadas pelo estresse da profissão.

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Está faltando docente no Ensino Médio

anizio.meloNúmeros apresentados pelo MEC/Inep/CNE e CNTE apontam para a acelerada chegada de um verdadeiro Apagão na educação, no que tange ao fenômeno da crescente diminuição de professores habilitados com nível superior para todas as disciplinas específicas, cerca de 235 mil professores.

Com a expansão da obrigatoriedade da matrícula no ensino Médio este quadro vai agravar-se, portanto, este debate torna-se crucial para os destinos de nosso País, já que a educação é apontada como instrumento estratégico para o desenvolvimento.

Não é por acaso que estamos vivendo esta triste realidade: a desvalorização dos profissionais da educação foi resultado da visão neoliberal e mercantilista que atingiu o Brasil e ainda não conseguimos superar seus efeitos. A nossa juventude não vislumbra o magistério enquanto profissão, pois percebe que os professores, que sofrem com salários baixos, são afetados pela violência nas escolas e por doenças derivadas do seu exercício.

Pesquisas apontam para o baixo número de matrículas nos cursos de licenciatura. O caminho do caos já está pavimentado, se faz urgente o estabelecimento de políticas públicas efetivas e articuladas entre as esferas de governo.

Anízio Melo
Diretor do Sindicato Apeoc

DEMANDA

Concurso não supre falta

Diante dessa imensa carência de professores na rede estadual de ensino, a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), realizou concurso em outubro do ano passado e ofertou quatro mil vagas, distribuídas nas diversas disciplinas do Ensino Médio. Na manhã de ontem, 3. 842 aprovados começaram a ser lotados. No entanto, as vagas não foram suficientes para suprir a demanda e área mais prejudicada ainda é a disciplina de Matemática.

Conforme Marta Emília da Silva, coordenadora de gestão de pessoas da Seduc, a expectativa é que, com a convocação, cerca de 70% da carência seja suprida, mas ela reconhece que, das 919 vagas ofertadas para a disciplina de Matemática, apenas 674 candidatos foram aprovados. “Existe uma problemática cultural em nosso País. É preciso que haja incentivo à docência, pois sabemos que grande parte desses professores não tem habilitação em nível superior “, ressalta.

Conforme a coordenadora, a área mais afetada com o déficit é a das Ciências da Natureza. Segundo ela, até a realização do concurso em outubro de 2009, a carência na rede pública estadual era de 374 professores de Física, 919 de Matemática, 396 de Química e 308 de Biologia. Acrescenta também que a Seduc não tem ideia do panorama atual, já que foram construídas mais escolas.

Novo levantamento deve será realizado somente após a convocação e lotação de todos os aprovados no concurso. Sobre a grande quantidade de professores temporários na rede pública, Marta Emília explica que, a maioria deles é contratada para realizar substituições momentâneas e não definitivas.

Fonte: Jornal Diário do Nordeste, 13/7/2010. Matéria de Capa. Karla Camila – Repórter.