Professores de 19 estados brasileiros afirmam que a família é o fator que tem mais influência na educação

Durante muitos anos, os pais lutaram para que seus filhos tivessem acesso à educação. Em 2008, no Ceará, há mais de um milhão e 600 mil alunos matriculados no ensino fundamental nas redes estadual, municipal e federal e outros 400 mil inscritos no ensino médio. Com os filhos em sala de aula, muitos pais saíram de cena e delegaram para a instituição escolar a responsabilidade total pela educação de crianças e adolescentes.

É o que sentem muitos professores das redes pública e privada do Brasil. Uma pesquisa divulgada no final de setembro, pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OIA) e a Fundação Santa Maria, com professores de 19 estados brasileiros, incluindo o Ceará, revelou que os pais estão ausentes na educação dos filhos.

Essa ausência, às vezes, é motivada por outros fatores. A aluna Hemilly Tavares Sampaio, de 15 anos, por exemplo, foi criada pelo avós, que são analfabetos e, portanto, não pode contar com o auxílio deles na realização das tarefas escolares. As dúvidas, ela tira com o namorado ou com os amigos. Mas, mesmo sem compreender o que a adolescente estuda, os avós tentam cumprir o seu papel, cobrando dela mais empenho. “Eles vão na escola uma vez por mês perguntar como eu estou me saindo”, conta.

Avaliação

A pesquisa intitulada “Qualidade da Educação sob o olhar dos professores”, entrevistou mais de oito mil docentes da educação básica, educação infantil e do ensino fundamental e médio, das redes pública e privada. Para a maioria deles (92,5%), a família é o principal fator que influencia a educação. Esses mesmos professores (91,7% do total de entrevistados) consideram que os pais estão delegando cada vez mais suas responsabilidades para a escola e para os professores.

No entanto, como observa o coordenador do ensino fundamental e médio do município de Fortaleza, Arlindo Araújo, a pesquisa revela uma percepção meio confusa dos professores, pois eles enxergam os problemas ligados à profissão, mas não propõem soluções ou demonstram interesse em resolvê-los também.

Arlindo Araújo avalia que o papel da família vem mudando e a escola precisa acompanhar essas transformações sociais e estar preparada para elas. “A escola pode muita coisa, mas não pode tudo”, frisa. Essa condição, observa o coordenador, não exime os pais de sua responsabilidade em também ser um agente educador.

“A família trabalha os valores sociais e morais, zelando também para que os estudantes façam as atividades pedagógicas recomendadas”, ressalta o coordenador do ensino fundamental e médio do município de Fortaleza.

Ceará

Certificar-se de que a tarefa de casa está feita é uma das atividades mínimas que os pais podem ter. Na opinião de especialistas da área, esse acompanhamento é essencial para o desempenho dos estudantes em sala de aula.

Contudo, a baixa escolaridade dos pais acaba se tornando um entrave. De acordo com a Organização Não-Governamental (Ong) “Todos pela Educação”, cerca de 42,6% das mães de estudantes cearenses têm menos de quatro anos de estudo, enquanto os pais, 53,2% deles também têm menos de quatro anos de estudos escolares. A dona-de-casa Maria das Dores Silva Lima, de 53 anos, é uma das mães que só teve quatro anos de escolaridade. “Eu sinto vontade de voltar a estudar, mas não posso. Por isso aconselho minha filha a aproveitar a oportunidade que ela tem”, conta a mãe.

Mesmo não podendo ajudar a filha Sabrina, que cursa o primeiro ano do ensino médio, com os conteúdos das disciplinas, ela está presente na educação da menina da maneira que pode. “Eu mando ela ir estudar sempre, mas adolescente, difícil é obedecer, o que atrapalha um pouco”, afirma.

FIQUE POR DENTRO

Conselho escolar é exemplo de participação

A importância da participação da família na escola gira em torno de três pontos: a relação entre a comunidade e a escola fica mais estreita, há uma confiança mútua entre as duas instituições e o aluno passa a se interessar mais pela escola e ter um melhor rendimento. Nas escolas da rede estadual há uma série de programas e atividades que visam trazer os pais para dentro da escola. A família participa de diversas formas. No conselho escolar, ela representa a comunidade e tem a oportunidade de acompanhar, fiscalizar e sugerir ações durante o planejamento das atividades da escola, inclusive para a aplicação de recursos. Já com o projeto Escola Aberta, desenvolvido nas escolas estaduais desde 2007, a família é convidada a participar através de atividades de caráter educativo e de lazer. O desejo dos educadores é de que os pais participem em massa de todas as atividades propostas pela instituição escolar, mas ainda há um pouco de resistência. Os professores da rede observam que a participação é sempre maior das famílias de alunos do ensino fundamental. No ensino médio, como se tratam de adolescentes, tende a haver um distanciamento maior dos pais.

RESPONSABILIDADE

Parceria ajuda a melhorar o ensino

Que os papéis da escola e da família mudaram significativamente nos últimos anos está claro, mas como eles estão se articulando para que um não invada o campo do outro é a grande questão que a pesquisa “Qualidade da Educação sob o olhar dos professores” coloca em evidência. No Ceará, esse impasse se encaminha para uma solução harmônica em muitos estabelecimentos de ensino público. A fórmula encontrada foi trazer a família para dentro da escola e junto com ela dividir as responsabilidades pela educação.

Na Escola de Ensino Fundamental e Médio Bárbara de Alencar, no bairro Varjota, não é só em dia de reunião ou quando os alunos fazem alguma malcriação que os pais podem ser vistos no colégio. Todos os dias, há mães querendo saber do comportamento dos filhos, das notas ou de projetos sociais em que eles possam ser inscritos. A dona-de-casa Regina Lúcia Diogo de Lima está todo dia presente na escola.

“Desde quando eles eram pequenos que os acompanho. Todo dia venho deixar os dois na escola”, conta a mãe de Luciano, que tem 14 anos e de Estefani, de 16 anos. Regina quer que os filhos tenham as oportunidades que ela não teve. E para isso, a mãe marca colado nos dois, cobrando que eles estudem sempre mais.

Mas, nem todas as mães têm essa disposição e tempo livre. Para 87% dos professores que participaram da pesquisa da OEI, os pais não prestam atenção suficiente às atividades dos alunos. Para mudar essa realidade, a EEFM Bárbara de Alencar promove uma atividade mensal denominada “Ciranda de Pais”.

Conforme a coordenadora de gestão da unidade, Stela Vasconcelos, a ciranda tem o objetivo de envolver todos que compõem a comunidade escolar (pais, professores e funcionários da escola) no processo de aprendizagem dos estudantes. “Trabalhamos o regimento escolar, os direitos e deveres do educando, quem é quem dentro da escola e a gestão democrática”, observa.

Stela observa que são as muitas as dificuldades com as quais a escola tem que lidar. Além dos problemas de infra-estrutura comuns à educação básica da rede estadual, a realidade social da comunidade é outro fator que influencia no trabalho de educação. “Estamos próximos da Avenida Beira-Mar e ela é um grande atrativo para os alunos. Lá, eles podem encontrar coisas boas e muita coisa ruim também”.

Para lidar com essas adversidades, a presença e apoio da família é essencial, assim como a escola acaba servindo de suporte também para esses pais, que recorrem a ela com as questões que dizem respeito aos alunos.
Naiana Rodrigues
Repórter

A OPINIÃO DO ESPECIALISTA

O papel da família

ÁLVARO REBOUÇAS
alvaro.rebouças@uol.com.br
Mestre em Psicologia e professor de Psicologia da Família da Unifor

A primeira função da família é a de socializar os seus membros para que eles possam se adequar à vivência social. A outra é acolher os membros dentro da família. Sendo assim, ela acumula duas funções: uma extrafamiliar e uma intrafamiliar. Ela acolhe e acompanha seus membros em várias fases da vida. Durante a infância e adolescência, esse acompanhamento tem o objetivo de preparar para a sociabilidade na vida adulta.

A própria família é um grupo social no qual há regras e valores. Hoje em dia, as alianças emocionais entre os integrantes de uma família têm um peso até maior que os laços de consangüinidade, o que fica claro, por exemplo, com as famílias que adotam crianças. Os pais irão fornecer os subsídios para que a criança adentre na sociedade. A escola, em si, já prepara os estudantes para o convívio social, mas antes disso, eles precisam ter uma preparação prévia para conviver dentro da escola, que constitui-se como grupo social.

Alguns especialistas em Psicologia observam que a idade ideal para que as crianças se separem dos pais é a partir dos três anos de idade, quando ela tem um suporte emocional mínimo. No entanto, o que observamos é que, pela necessidade, os pais, principalmente as mães, separam-se cada vez mais cedo dos filhos. Realidades como essa levaram a uma mudança dos papéis parentais.

Os papéis femininos aumentaram, ela tem um papel dentro e fora da família. Enquanto os masculinos permaneceram os mesmos. Os dois agora são provedores e há uma vinculação maior com o social externo que com o interno. A conquista do capital se tornou mais relevante e estamos terceirizando funções de outras instituições e a escola é uma delas, entrando como apoio da família nesse processo.

Estamos diante de novas contingências que a educação formal não dá conta. A escola foi abarcando essas dimensões e hoje chega a um limite. Os pais não a autorizam a educar completamente e ela fica no centro da situação. Essa educação informal que as escolas passam a desempenhar é que está sendo o foco dos questionamentos de educadores e dos próprios pais. O que traz à tona as implicações atuais entre a família e a escola.

RADIOGRAFIA

19 estados brasileiros foram pesquisados
58 perguntas fechadas compunham o questionário
8.773 professores responderam ao questionário
83% dos entrevistados trabalham na rede pública
17% dos educadores são da rede privada de ensino
92,5% dos professores acreditam que a escola é o fator que mais influencia a educação das crianças e adolescentes
91,7% dos entrevistados concordam que a família delega à escola cada vez mais parte de suas responsabilidades educativas
87% dos mestres acreditam que os pais não prestam a atenção necessária às atividades escolares dos filhos e nem acompanham as tarefas
49,4% dos entrevistados consideraram que a educação piorou nos últimos anos
83,1% dos professores se sentem satisfeitos com o relacionamento com outros professores da equipe e com os estudantes dentro da escola
37,7% dos educadores se sentem satisfeitos com o desempenho acadêmico dos estudantes

Fonte: Jornal Diário do Nordeste – 09/10/08
Editoria: Cidade