Fortaleza apresenta, com relação ao Ensino Fundamental, um índice de 2,9% de abandono entre os estudantes. No Ensino Médio, da Capital, o percentual de desistência é de 16,6%
LIANA SAMPAIO

Segundo o Censo Escolar, em Fortaleza, dos 230 mil alunos do Ensino Fundamental, 11 mil desistiram de estudar

O autônomo, Rafael Menezes, 22, já deixou de estudar há três anos, largou a escola no 2º ano do Ensino Fundamental. Como obrigação tinha que trabalhar, virar gente grande. Trocou os livros para “pegar no batente”.

Conforme os dados do Censo Escolar 2010, Rafael Menezes é um dos 58 mil estudantes do Ensino Médio que abandonaram a escola em 2010 no Ceará. O índice de abandono no Ensino Médio chega a 12% em todo o Estado. Dos 230 mil matriculados no Ensino Fundamental dos colégios municipais da Capital, mais de 11 mil desistiram de estudar, um total de 5,6%.

“O pior é que muitos dos meus amigos também saíram da escola e não sabem se vão voltar. Eu vou arrumar um tempo e voltar a estudar “, diz Rafael.

No Brasil, o percentual total de abandono no Ensino Médio – somando as escolas públicas e as particulares – é 10,3%. No Ensino Fundamental esta porcentagem é de 3,1%. Assim, com relação ao Ensino Médio, o Ceará apresenta um índice superior à média nacional, 10,6%. Juntando todas as instituições de ensino, entre privadas e públicas, Fortaleza apresenta 2,9% de abandono no Ensino Fundamental. A rede pública do Ensino Médio teve abandono, só na Capital, de 16,6%.

Fazendo um comparativo entre os anos de 2004 e 2010 referente aos indicadores de rendimento escolar houve uma progressão no número de aprovação e diminuição nos índices de reprovação e abandono em Fortaleza. Em 2004, o percentual de aprovação foi 71,9%, em 2010 esse número subiu para 81,6%. No quesito reprovação, em 2004, o rendimento escolar apontou 16,7%, enquanto que em 2010,este número caiu para 12,8%. No ano de 2004, o abandono escolar foi de 11,4%, tendo seu percentual de 5,6% em 2010, explica a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação (SME).

Já a Secretaria da Educação do Estado do Ceará (Seduc) afirma que a aplicação do Programa de Alfabetização na Idade Certa (PAIC) tem contribuído para a melhoria dos índices.

Um dos motivos que leva ao abandono ou a distorção idade-série é a reprovação. A dona de casa, Maria do Socorro Braga, 42, vê o filho de 15 anos, sofrer sem conseguir terminar o Ensino Fundamental. “Inventaram um negócio de não reprovar mais. As diretoras dizem que os meninos largam os estudos quando são reprovados”.

Contudo, os dados o são desanimadores com relação à reprovação no Ceará. No Ensino Médio, em Fortaleza, este percentual é de 11,3%. Mais de 20mil dos 184mil alunos perderam o ano. No Estado, a quantidade de reprovação no Ensino Médio é de 7,5%, mais de 33 mil alunos tiveram que refazer a série. Na Capital, 12,8% não foram aprovados no Fundamental.

Reprovação

Alunos do Ensino Médio no Ceará tiveram que refazer a série. Em Fortaleza, mais de 20 mil dos 184 mil estudantes foram reprovados 33mil

ENTREVISTA
Wagner Bandeira Andriola*

Governo precisa avançar no monitoramento dos processos educacionais Quais seriam os principais motivos para a distorção idade-série?

Os principais motivos relacionados à distorção idade-série são a baixa qualidade dos aprendizados dos alunos, que ocasiona a desmotivação para os estudos, a reprovação, e, em muitos casos, o abandono da escola. Esse é um fenômeno que atinge primordialmente grupos sociais mais frágeis socialmente. Portanto, caberá aos mantenedores do sistema educacional (federação, estado ou município) induzir a escola a aumentar sua eficiência e eficácia, através do aprimoramento dos processos de formação dos alunos. Em suma: a escola deve ser muito mais eficiente para com os alunos com maiores dificuldades de aprendizado.

O que tem levado os estudantes a atrasarem o término da conclusão dos estudos?

Depende do nível escolar. Por exemplo, no Ensino Fundamental esse atraso tem associação com a baixa qualidade dos aprendizados e suas consequências já referidas. No Ensino Médio e Superior o atraso na conclusão dos estudos tem forte associação com a inserção laboral precoce dos jovens, muitas vezes em atividades que não exigem qualificação profissional elevada. Outro fator desse atraso é o currículo escolar, muitas vezes distante da realidade do alunado, das aspirações sociais e empresariais. Estes fatores contribuem para uma formação penosa e excessivamente teórica.

Qual o papel da escola para garantir a continuidade e a estabilidade das crianças na escola? O poder público tem sido eficaz nesta tarefa?

A escola deverá adaptar-se às novas demandas sociais por meio da adoção de processos de gestão e de formação eficientes e eficazes.

Ao poder público cabe garantir financiamento de excelência à escola, proporcionar formação continuada aos profissionais da escola, avaliar e monitorar os processos e os produtos educacionais, reconhecendo o mérito destes. Infelizmente, o poder público tem sido ineficaz nessas ações.

Quais os prejuízos dos estudantes que atrasam os estudos e que, consequentemente não conseguem acompanhar a série adequada?

Ele será potencialmente um aluno desmotivado para com os estudos e, provavelmente, mais um dos que abandonam precocemente os estudos. Nesses casos, muito provavelmente incrementará o grupo dos subempregados.

Sobre o abandono escolar, como combater? Faltam políticas públicas eficazes e capazes de enfrentar este problema?

O abandono escolar é um fenômeno educacional com forte associação com as dimensões social e econômica, que atinge todos os níveis educacionais. Pensar em políticas públicas de combate ao abandono é pensar em linhas de ação eficazes de manutenção dos alunos no espaço escolar, que não prescindam da comunidade escolar. Assim, por exemplo, as crianças do Ensino Fundamental deveriam ser induzidas à permanência na escola para além do tempo de formação pedagógica, em atividades esportivas, artísticas, culturais e de exercício da cidadania.

Professor de Educação da UFC

IVNA GIRÃO
REPÓRTER

 

(Jornal Diário do Nordeste, 14 de julho de 2011)