Alguns companheiros acharam corrosivo o boletim publicado pelo sindicato APEOC em que expressávamos nossa indignação cm os acontecimentos da assembléia do dia 28/05 no ginásio Aécio de Borba. Acharam inconveniente essa discussão no momento em que a categoria enfrenta grande embate com o governo estadual. Talvez concordem com seus métodos, ou  apenas os tolere por terem se acostumado a eles, achando natural esse comportamento como próprio de quem se encontre na sua condição. Alguns, talvez ainda se identifiquem com eles devido à insistência em se autoproclamarem defensores da base contra a “famigerada burocracia” da APEOC.

É possível também que a categoria estranhe o fato do sindicato se ocupar em dar uma resposta contundente às agressões que sofre historicamente por parte desse conjunto de agrupamentos políticos, uma vez que, de modo geral silenciamos diante deles, preferindo dar encaminhamento concreto à luta para não se perder em discussões estéreis. “Os  cães ladram e a caravana passa”.

Sobre ser conveniente ou não discutir esse problema agora temos duas razões para justificar o debate nesse contexto. Em primeiro lugar, a greve é também um momento pedagógico de aprendizado político. Sabemos quão sobrecarregados os professores são no seu dia a dia em sala de aula. De modo geral não têm tempo livre suficiente para se ocuparem com questões dessa natureza. Na greve se deparam com debates que muitas vezes os colocam à mercê de quem fala mais alto, ou, utilizando-se das técnicas de adestramento de animais, que inspirou Pavlov/Skinner em suas teorias do reflexo condicionado, tentam convencer através da repetição de uma idéia. Afinal se muitos falam uma mesma coisa, dão a impressão de serem maioria, e se “a voz do povo é a voz de Deus”, devem estar dotados de razão. A psicologia de massas do nazismo utilizou essa regra com enorme competência, a ponto de seu ideólogo e chefe de propaganda, Joseph Goebbels, cunhar uma máxima que se tornou lapidar, expressando o poder que a repetição de uma idéia pode ter sobre um coletivo de pessoas: “uma mentira repetida à exaustão se torna uma verdade”.  Não tem que ser necessariamente uma mentira; mas qualquer idéia que foge à discussão em torno de seus fundamentos lógicos ou históricos, precisando recorrer a essa artimanha para convencer (?), deve, no mínimo, ser considerada suspeita.

A outra razão reside no fato de que, justamente por estarmos vivenciando um momento muito delicado de conflito com o governo, precisamos adotar um regime de tranqüilidade em nossas instâncias que permita aos membros da categoria se sentirem a vontade para debaterem com profundidade e atenção as questões que tocam a compreensão e os encaminhamentos da greve. Não é possível e aceitável que só porque alguém tenha uma idéia diferenciada, mesmo que da maioria, seja massacrado moralmente e impedido de expressar sua opinião. Pensamos que nossa categoria deve reivindicar a saudável tradição do Iluminismo, que propugnava defender à morte o direito de alguém manifestar sua opinião mesmo que discordasse dela em absoluto. No caso em questão, um companheiro que teve sua fala impedida pelos gritos irados da oposição, aproveitando a carona no fato da maioria da assembléia exigir a votação imediata  sem discussão de proposta, temendo um possível esvaziamento. Chamavam-no de “diretor”, como se isso fosse algo pejorativo. O estranho é que alguns que o “xingavam” dessa maneira, haviam sido candidatos como ele, ao cargo de diretor em suas escolas. E, talvez como ele também tenham sido eleitos e não levaram por conta da condução que a SEDUC deu ao processo eleitoral. Um dos fatos geradores da greve, inclusive. Para quem exige com tanta obstinação a coerência alheia, seria bom que exigissem de si mesmos essa virtude, tirando a trava dos próprios olhos.

Já frisamos no boletim que os companheiros da oposição na reunião do comando, haviam reivindicado com a veemência de “rei bebê” que se fizesse o debate prévio à votação. Denunciavam que o sindicato estava manobrando a assembléia votando imediatamente a continuidade ou não da greve, para provocar seu esvaziamento e impedir a base de escutar a fala da oposição. Nem a assembléia esvaziou, nem os companheiros tiveram sua fala podada. Aliás, até parece ser uma manifestação  de transtorno obsessivo compulsivo dos companheiros a maneira recorrente com que denunciam em suas intervenções, com o microfone da assembléia nas mãos, que suas falas estão sendo podadas. Ao que parece, esta pratica não é nossa, devendo acontecer em assembléias de outras entidades nas quais porventura participem.

Tentar ganhar no grito já é por si só, abominável. Agora, tentar ganhar no tabefe é intolerável. Não podemos permitir que uma assembléia, principalmente de professores, degenere num festival de pancadarias, como tivemos a ponto de chegar devido à agressividade dos companheiros da oposição. Agressividade que se revelou em quase todos os momentos da assembléia. Não foi fruto de uma revolta momentânea devido a qualquer fato que pudesse justificar ou pelo menos explicar esse comportamento. Foi algo articulado desde o início, quando disseminaram pela assembléia que o sindicato pretendia encerrar a greve naquele instante. Sabiam que não cogitávamos isso e, se fosse o caso, defenderíamos sem medo uma proposta como essa, sem ser  necessário que a oposição a colocasse em nossas bocas. Inflamando a assembléia criaram o campo de cultura necessário para o desfecho violento que pretendiam provocar.

Será que os companheiros não conseguem entender que essas práticas viciadas só contribuem para o afastamento do professor de base de nosso movimento?. Achamos que as atitudes falam mais alto do que os discursos e aquilo que os companheiros dizem querer evitar é justamente o que podem estar promovendo, ou seja,  o esvaziamento do movimento. Não entendemos porque os companheiros da oposição não se somam a nós na luta pelo fortalecimento das instâncias decisórias da categoria, principalmente de sua assembléia geral. Para isso precisamos desestimular a prática igualmente viciada de decidir o fim de uma greve no interior das escolas. É politicamente salutar saber iniciar e encerrar uma greve, reunidos em assembléia geral. Até porque o encerramento de uma greve implica em discutirmos e decidirmos sobre como daremos continuidade à luta no momento posterior à greve. É também o momento de articularmos estratégias que nos previnam contra as retaliações do governo e fazê-lo cumprir as promessas assumidas por ele. É de forma organizada que devemos programar o recuo de uma greve e não debandando para o interior das escolas, como se tivéssemos batendo em retirada. Fortalecer a assembléia geral é também permitir que o debate aconteça sem ameaças ou constrangimentos Com certeza não seria contra revolucionário adotarmos a civilidade como uma regra em nossos fóruns.

Somos professores, formadores de opinião e de cidadãos. Lamentavelmente vivemos a triste realidade do barbarismo que invade as escolas. Sabemos o quanto temos freqüentado as paginas policiais. Por outro lado, temos consciência do papel fundamental da escola e, por conseguinte do professor, na tarefa de superação deste estado de violência que afeta duramente nosso povo. Temos dito que construir escolas hoje nos poupará do infortúnio de construir mais presídios amanhã. Mas para isso temos que ter um profissional valorizado, respeitado em sua dignidade, que não seja alvo, nem protagonista da barbárie nossa de cada dia.

Educação ou Barbárie, eis a questão. 

Prof. Fábio Lopes – secretário de formação do sindicato APEOC