Modelo atual é criticado por alunos, especialistas, sindicato e a própria Secretaria da Educação. Todos concordam: aprender 13 disciplinas de forma simultânea é fator desestimulante. Outros sistemas passam por testes

Aos 18 anos, Samirames Cristiny integra uma nova geração de estudantes cearenses. Uma aposta de especialistas, professorado e Governo. Ela preferiu cursar também o ensino profissionalizante ao invés de apenas o ensino médio tradicional. Após três anos, formou-se em turismo pela Escola de Educação Profissional Paulo Petrola, na Barra do Ceará, em Fortaleza. “Se não fosse assim, eu não teria feito meu próprio plano de vida”, diz a jovem.
 
Ela, movimento sindical e até técnicos da Secretaria Estadual da Educação (Seduc) levantam a bandeira de mudanças no currículo escolar médio, já considerado ultrapassado por submeter estudantes ao contato com 13 disciplinas diferentes de forma simultânea.

Segundo especialistas, esse modelo não garante altos índices de aprendizagem. No Estados Unidos, por exemplo, os alunos lidam com sete matérias obrigatórias. Em países da Europa, o peso delas varia conforme a área do conhecimento escolhida pelo jovem. Se ele preferir as ciências humanas, valerá na formação mais o estudo da língua nacional e história, por exemplo.

Algo que, para mudar por aqui, precisa ser reflexo de uma mobilização em todo o Brasil. Um debate já posto no Plano Nacional de Educação, que tramita no Congresso. “O currículo precisa ser mais atualizado e pensar o homem como ser mais completo. Deve identificar o aluno com a sua realidade. A escola precisa quebrar os muros e assumir essa nova sociedade, que interage na esquina e em bate-papos virtuais”, pontua o presidente do Sindicato dos Professores do Ceará (Apeoc), Anízio Melo.

Com cerca de 600 escolas de ensino médio regular, o Ceará vive o desafio da oferta diversificada de sistemas. “O maior problema do ensino tradicional não é ele em si. É toda escola fazer do mesmo jeito. A gente não pode universalizar um único modelo. Nem se pode trocar um modelo por outro. Temos é que atender aos anseios dos alunos. O currículo só se torna atrativo se dermos o poder de escolha a eles (estudantes). Tratar a todos mundo como iguais é um erro”, avalia o coordenador de aperfeiçoamento pedagógico da Seduc, Rogers Mendes.

Isso acontecendo, o acesso à escola na faixa etária dos 15 aos 17 anos pode melhorar no Estado. Na última segunda-feira, 19, O POVO mostrou que o Ceará ocupa a 17ª posição no ranking nacional dessa taxa de atendimento. Além disso, tem a sexta maior estatística de jovens fora da escola. Os dados são de 2010.

O cenário tem ligação direta com a qualidade do ensino fundamental, de onde muitos saem sem efetuar uma simples operação matemática de multiplicação. Outros sequer vão adiante. A defasagem acaba tendo que ser recuperada nos três anos subsequentes. “Discussão de currículo volta sempre, mas não pode se mudar só por modismo. Tem que se levar conhecimentos mais significativos para os alunos”, pondera o orientador da Célula de Estudos e Pesquisas da Seduc, Daniel Lavor.
 
ENTENDA A NOTÍCIA

A escola de ensino médio pode ser mais atrativa se apresentar menos disciplinas obrigatórias e der mais liberdade para o aluno montar seu próprio currículo de estudo, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos e Europa. Especialistas também defendem aplicação de 10% do PIB em educação.
 
Multimídia
O programa Grande Jornal, da rádio O POVO/CBN, discute o tema com especialistas da área de educação. O programa começa às 9h. Acompanhe na AM 1.010 Khz.
 
Saiba mais

As 13 disciplinas das escolas de ensino médio do Ceará são: língua portuguesa, arte, língua estrangeira (espanhol/inglês), educação física, matemática, química, biologia, física, história, geografia, sociologia, filosofia e formação para a cidadania (exclusiva das escolas que aderem ao “diretor de turma”).
 
Desde 2008, o Governo do Estado diz ter inaugurado 82 escolas de perfil profissionalizante no Ceará.
 
No relatório “De olho nas metas 2011”, da ONG Todos pela Educação, o Ceará figura na nona posição no quesito “crianças e jovens fora da escola”. Em 2010, eram 160.788 distantes da rotina escolar.
 
Enquete da semana
 
O tema “Acesso à educação no Ceará” foi o mais votado (51% dos votos) em nossa enquete desta semana da seção Você Faz O POVO, do portal O POVO Online.
 
As votações acontecem sempre às segundas e terça-feiras de cada semana e os internautas escolhem o tema que querem ver ampliado na cobertura dos veículos do Grupo de Comunicação O POVO ao longo da semana.

Fonte: O Povo