A crise na escola pública se amplia com a deserção de professores, como vem ocorrendo com os últimos mestres concursados pelo Estado, dos quais 20% já desistiram da profissão. As causas para tanto são as mais variadas, indo da baixa remuneração, à violência interna e externa ao ambiente escolar, a falta de equipamentos e materiais didáticos atualizados, de motivação por parte do alunado e o desencanto com o sistema de ensino e aprendizagem.

O recente homicídio perpetrado contra um jovem de 19 anos nas dependências do Colégio Polivalente Modelo de Fortaleza, no Conjunto Prefeito José Walter, mostra como avança o nível de violência na rede pública. A vítima não era aluno do estabelecimento da periferia da cidade. Sentiu-se perseguido por dois supostos traficantes de drogas e procurou refúgio dentro do colégio estadual, sendo abatido sem piedade, contra o qual foram disparados sete tiros de pistola.

Pela manifestação dos policiais deslocados para apurar a ocorrência, o crime tem características de acerto de contas por dívidas de droga, à semelhança de centenas de outras mortes com idêntica motivação. A forma de cobrança praticada no submundo das drogas é sumária, portanto, sem direito de defesa, e se expande num crescendo preocupante, exigindo seu enfrentamento pelo poder público.

Nestes tempos conturbados, a escola se transformou no ambiente por excelência para a projeção dos conflitos familiares, das patologias sociais e das resistências ao processo de aprendizagem. O primeiro embaraço diz respeito ao cumprimento das normas de convivência em grupo, sendo a noção de ordem muito pouco assimilada. Sem ordem não há disciplina. Sem disciplina a educação formal se revela nula.

Por isso, a apuração do rendimento escolar vem-se transformando em foco de divergência entre mestres e alunos, gerando descontentamentos, ameaças de agressões e represálias dos estudantes contra os professores. Especialmente no ensino médio, o conteúdo programático não corresponde nem às necessidades dos educandos, nem às exigências do mercado de trabalho para o qual eles convergem.

Além desses desencontros, há, igualmente, falha na gestão pública, registrando-se inúmeros episódios de escolas beneficiadas com computadores nunca instalados por falta de rede energética adequada, de instrutores habilitados e de inclusão dessa prática educativa na programação curricular. Os equipamentos estão sendo ultrapassados pela velocidade registrada no mercado da informática sem qualquer uso.

A ação direta de inconstitucionalidade promovida contra o piso salarial do magistério desencadeou, entre os professores, a desesperança pela valorização profissional preconizada pelo Fundeb. Até a nova sistemática de remuneração da categoria, intentada pelo Estado, produziu efeito contrário, aumentando o clima de desestímulo.

A desistência da carreira é apenas um indicativo desse universo de questões pontuais. O mais difícil tem sido fazer a mocidade optar pelos livros, elegendo o conhecimento como ferramenta para a ascensão social. O desafio é gigantesco.

Fonte: Diário do Norteste. 05.04.2011